O que foi a Revolta da Chibata, referência usada por Mv Bill

Mv Bill.
Liberto como Django Livre. A Revolta da Chibata mais "favela vive". Proibido proibir falar de racismo, mimimi é de quem chama de vitimismo.
O verso acima foi de Mv Bill no projeto Poesia Acústica 4, intitulado "Todo Mundo Odeia Acústico". O projeto contou com outras presenças fortes, como o do também MC, Djonga, que nos atentaremos futuramente, hoje nos atentaremos a Mv Bill e especificamente a referência feita a "Revolta da Chibata".

O que foi a Revolta da Chibata

A Revolta da Chibata foi um motim iniciado em 22 de Setembro de 1910. Os marujos negros eram da primeira geração de africanos em diáspora brasileira pós-abolição da escravatura (1888).

As Forças Armadas ofereciam uma "oportunidade" para os negros que no Brasil residiam, porém a instituição  mantinha o resquício da escravidão de punir negros com chibatadas.

Sem direito ao voto e a outros direitos estabelecidos apenas para brancos, os negros não tinham o que os defendessem das cruéis punições das Forças Armadas e então a situação chegou ao seu limite, 22 anos após a falsa abolição da escravatura. Durante 2 anos de planejamento, os marujos negros escalaram cada um dos futuros líderes da revolta, que estourou uma semana após a posse do marechal Hermes da Fonseca, em 22 de setembro de 1910.

O estopim se deu quando Marcelino Rodrigues foi punido com 250 chibatadas. O ex-capitão da marinha, José Carlos de Carvalho, disse a Hermes da Fonseca que as costas de Marcelino Rodrigues pareciam "uma tainha aberta para salgar". Revoltados com o estado físico de seu parceiro, os marujos decidiram explodir a revolta. 

Aproximadamente as 22h do dia 22 de Setembro de 1910, a revolta começou. Cerca de 2 mil marinheiros se revoltaram na costa da então Capital Federal, o Rio de Janeiro. Os marujos revoltosos começaram a revolução a bordo do Minas Geraes, onde mataram o comandante e vários membros leais da tripulação, tiros foram disparados para sinalizar o início da revolta para outros navios que ali estavam ancorados também.

Antes da meia-noite do dia 22 de Setembro de 1910, João Cândido enviou uma carta ao presidente, que dizia: "Não queremos o retorno da chibata. Isto é o que pedimos ao Presidente da República e ao Ministro da Marinha. Queremos uma resposta imediata. Se não recebermos tal resposta, destruiremos a cidade e os navios que não são revoltantes.". Entretanto, mesmo com o envio da carta, o presidente Hermes da Fonseca se recusou a manter contato direto. Pela manhã, o corpo dos marinheiros mortos no Minas Geraes foi enviado a Ilha das Cobras, juntamente com uma carta de João Cândido Felisberto e outros marujos.

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu, que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo. Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os Oficiais, os quais, tem sido os causadores da Marinha Brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratarnos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V. Excia. faça os Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilita, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira. Reformar o Código Imoral e Vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos semelhantes; aumentar o soldo pelos últimos planos do ilustre Senador José Carlos de Carvalho, educar os marinheiros que não tem competência para vestir a orgulhosa farda, mandar por em vigor a tabela de serviço diário, que a acompanha. Tem V.Excia. o prazo de 12 horas, para mandar-nos a resposta satisfatória, sob pena de ver a Pátria aniquilada
Bordo do Encouraçado São Paulo, em 22 de novembro de 1910.
Nota: Não poderá ser interrompida a ida e volta do mensageiro.
Marinheiros
Carta Original 

Na mesma manhã, os navios dispararam contra os fortes militares, localizados ao redor da Baía de Guanabara, nas bases da Ilha das Cobras, no palácio presidencial, entre outros. Uma das bombas disparadas atingiu uma casa em Castelo, matando duas crianças. Essas crianças seriam lembradas por João Cândido mesmo após décadas do acidente, onde afirmou em uma entrevista que ele e os marujos revoltos tiraram dinheiro de seus "salários miseráveis" para pagarem o enterro das mesmas.

Na manhã seguinte, a população soube que os navios da marinha brasileira estavam sendo tripulados pelos marinheiros negros, considerados da mais baixa subclasse da época, além de estarem atirando contra a cidade. Apesar do medo inicial, posteriormente os marinheiros negros foram tratados como heróis da época.

Fonseca e o então ministro da Marinha, Joaquim Marques Batista de Leão, começaram a planejar em uma solução militar. José Carlos de Carvalho foi nomeado agente de ligação e começou a fazer ligação entre o presidente e os marujos negros. Carvalho, que então era um deputado federal e ex-membro da Marinha e engenheiro naval da Guerra do Paraguai, relatou ao Congresso que os rebeldes eram bem organizados, liderados e armados. Seu relatório também falou das queixas dos marinheiros sobre os castigos físicos e que uma solução militar era pouco provável de solucionar o problema.

No dia 24 de Setembro, ainda pela manhã, o Correio da Manhã foi a primeira fonte a chamar João Cândido de "almirante".

A Anistia foi aprovada pela câmara, no dia 25 de setembro, por 125-23. Ameaçado, Hermes da Fonseca, sancionou a anistia. Os marujos negros voltaram em 26 de setembro, após um período de consternação.

Segunda Revolta


Os marinheiros foram expulsos após a entrega do armamento e dos navios. A insatisfação dos marinheiros então retornou e os mesmos se revoltaram na Ilha das Cobras. A segunda revolta foi fortemente reprimida, levando alguns marinheiros a serem presos em celas subterrâneas, de condições desumanas, da Ilha das Cobras. Alguns marinheiros faleceram sob a condição desumana das celas da Ilha das Cobras, outros foram levados para serem escravizados novamente na Amazônia.

João Cândido foi expulso da Marinha e levado para ser internado no Hospital de Alienados. Em 1912, João Cândido e outros marinheiros foram absolvidos.

Quem é Mv Bill

Alex Pereira Barbosa, mais conhecido como Mv Bill é um rapper, ator e escritor. Iniciou na música em 1988, quando começou a escrever samba-enredo para o seu pai. Seu primeiro álbum "Traficante de Informação" foi lançado em 1999 e conta com a faixa "Soldado do Morro", que posteriormente fez Bill ser acusado de apologia ao crime enquanto se apresentava no Free Jazz Festival, em 1999, por usar uma réplica de arma como adereço. Posteriormente Bill lançou outros álbuns, EPs e singles. 

Paralelamente a sua vida de rapper, Bill lançou junto com Celso Athayde o livro "Cabeça de Porco", em 2005. No ano seguinte, Bill lançou "Falcão - Meninos do Tráfico", um documentário disponibilizado em livro e DVD, que conta a história de dezessete jovens envolvidos com o tráfico de drogas onde somente um sobreviveu. Durante as filmagens, Bill foi detido e preso por policiais. A sequência foi lançada em 2007, com o título de "Falcão - Mulheres e o Tráfico".

Mv Bill também atua como ativista, sendo o criador, juntamente com Celso Athayde, da Central Unica de Favelas (CUFA), presente no Brasil inteiro.

2 comentários

  1. O primeiro álbum do MV Bill não foi Traficando Informação e sim CDD Mandando Fechado, que é um álbum muito pouco conhecido

    ResponderExcluir
  2. Então, a pequena biografia não é bem o que eu acho (porque eu também o considero o primeiro álbum do Bill), mas o que ele e o assessor colocaram em seu release. O Bill considera Traficando Informação como seu primeiro álbum, por isso da informação ali.

    ResponderExcluir