O que ninguém te contou é que, eram negras as bruxas queimadas na Idade das Trevas.

Texto retirado de “mulherisma africana — uma teoria afrocêntrica”, de Nah Dove.

Um dos festivais da República Checa: "queima as bruxas" é uma tradição que é celebrada todos os anos no país.

Por Nah Dove em "Mulherisma Africana".

FUNDAMENTOS PATRIARCAIS DE UMA SUPREMACIA BRANCA EM DESENVOLVIMENTO. 


Eu expliquei a conquista da África pelos europeus como a conquista do matriarcado pelo patriarcado. Ao mesmo tempo, a zona de confluência na área do atual do Oriente Médio também foi uma experiência paralela para os povos Indígenas Africanos que povoavam a área antes da conquista indo-ariana. O ponto que eu estou fazendo é que os valores matriarcais que os povos africanos retiveram teve um grande impacto sobre a Europa durante e após a destruição de Kemet. Sua influência se espalhou pela Europa, inspirando mulheres sob a tirania da opressão patriarcal a praticarem crenças espirituais que invocavam os princípios femininos do Criador. Como observado anteriormente, os povos Africanos tinham se estabelecido na na Europa antes da povoação dos Mouros já a partir de 1000 A.C. (Van Sertima, 1988, pp. 134–137). Além disso, a conquista da Kemet pelos gregos em 332 a.C. e pelos romanos de 30 a.C. a 323 d.C. certamente teria tido uma grande influência sobre as mulheres gregas e romanas. A pesquisa de Diop (1959/1990) revela uma tradição europeia de matar mulheres por conta de seu apoio a valores matriarcais que podem ser traçados até Grécia e a Roma, quando as mulheres eram proibidas de praticar o culto a Dionísio, um deus nacional Egípcio (Kemético) (p. 175).
Dionísio representava a dualidade dos sexos e o desenvolvimento dos seres humanos, especialmente as mulheres. Diop diz que “ele é o deus cujo ensinamento contém todas as aspirações secretas da mulher ariana, tão constrangidas e sufocadas pela sociedade” (p. 174). Parece que as deusas Diana13 e Isis (Auset) foram reverenciados por toda a Europa a partir, pelo menos, do quinto século. É significativo que, tanto Diana, quanto Isis (Auset) eram Afrikanas. Diana era Etíope (Diop, 1959/1990, p. 80) e Isis (Auset) era de Kemet.

A presença moura na Europa teria feito pouco para aliviar este problema. Se o impacto das pessoas Afrikanas na Europa inculcou um medo dentro do cristianismo do conhecimento dos Mouros e sua conexão com a negritude, também deve ter transmitido um medo sobre o poder e o papel das mulheres Africanas, porque, naquele tempo, a fé islâmica praticada pelos mouros Africanos na Espanha ainda mantinham influências matriarcais, em oposição ao patriarcado do cristianismo católico. Reynolds (1992) observa que “os mouros eram conhecidos por terem sido governados por chefes do sexo feminino, mulheres santas ou rainhas, mesmo no tempo da islamização da África do Norte” (p. 111). Isso explicaria meninas e meninos que frequentam a escola e o status elevado de mulheres que eram, por exemplo, advogadas, médicas e professoras na Espanha Moura (Jackson, 1992).

De acordo com Mies (1986), milhões de mulheres foram assassinadas como bruxas do século 13 até o século 19. Ela relaciona este holocausto à guerra prolongada realizada por homens europeus contra as mulheres europeias para o controle sobre as instituições centradas no sexo feminino, durante o desenvolvimento do capitalismo (p. 70). Sale (1991), Walker (1983) e Stone (1976) vinculam a queima das bruxas à cristianização da Europa. A sanção dessas mortes pela Igreja, sugere Sale (1991), foi relacionado com o medo das mulheres por causa de sua prática de outras formas de culto, como animismo, adoração à deusa, e paganismo (p. 249). Em outras palavras, a consolidação do cristianismo na Europa pode bem ter sido uma tentativa planejada para acabar com influências espirituais matriarcais em mulheres europeias.

Contemporaneamente à queima das bruxas, para facilitar a expulsão dos povos Africanos e sua influência, a Inquisição foi projetada pela Igreja Católica para purgar a terra de não-cristãos, queimando os assim chamados hereges. É lógico supor que os hereges eram principalmente mulheres e homens Africanos os que lhes fossem associados. A pesquisa de Sale (1991) sugere que havia uma relação entre a queima de hereges e a queima das bruxas. Se este for o caso, então, quem foram as mulheres assassinadas? Em qualquer caso, nós sabemos que elas não eram cristãs. Muito provavelmente, elas não eram todas europeias, como Mies (1986) e Sale (1991) implicam. Se o que Mies (1986) postula — que a matança das bruxas foi sobre o controle da reprodução sexual das mulheres — for verdade, então, dada a natureza xenófoba dos europeus e o seu aparente medo da negritude, podemos supor que muitas dessas mulheres podem muito bem terem sido negras. Qualquer análise séria das características culturais e racializadas que sustentam a cristianização da Europa deve incluir o desenvolvimento do capitalismo através de expansionismo europeu e a construção da supremacia branca como base para o massacre em massa de mulheres, homens e crianças Africanos; Primeiro Nações de mulheres, homens, e crianças; e mulheres brancas que praticavam valores matriarcais. Parece claro que as forças culturais que surgiram a partir do patriarcado do norte resultaram na morte de milhões de mulheres cuja lealdade cultural e, possivelmente, a racial foram postas à prova.


Referências:

Diop, C. A. (1990). A Unidade Cultural da Africa Negra*. Chicago: Third World Press. (Original work published 1959)
Reynolds, D. ( 1992). The African heritage and ethnohistory of the Moors: Background to the emergence of early Berber and Arab peoples, from prehistory to the Islamic dynasties. In I. Van Sertima (Ed.), Golden age of the Moor. New Brunswick, NJ, and Oxford, UK: Transaction Publishing.
Jackson, J. (1992). The empire of the Moors. ln I. Van Sertima (Ed.), Golden age of the Moor. New Brunswick. NJ: Transaction Books.
Mies, M. (1986). Patriarchy and accumulation on a world scale. London: Zed Books.
Sale, K. (1991). The conquest of paradise. New York: Knopf.
Walker, B. G. (1983). The woman’s encyclopedia of myths and secrets. New York: Harper-Collins.
Stone, M. (1976). When God was a woman. San Diego, CA: Harvest.



3 comentários

  1. Muito bom!
    O texto me fez pensar em algumas questões paralelas.
    Por exemplo: quando você fala das deusas Diana e Isis, leva a pensar sobre Atlântida, o continente perdido, e outras lendas que consideram que as amazonas e demais mulheres guerreiras não eram essas mulheres helênicas e de tipo físico greco-romano. Provavelmente, Atlântida nunca foi encontrada porque ser negado que ela esteja "submersa" em território não-europeu. Ou seja, a Mulher Maravilha nunca foi branca.
    Outra questão que me interessou muito foi o sobre a "natureza xenófoba dos europeus e o seu aparente medo da negritude". Ora, esse período precede em pouquíssimo tempo o fim da escravidão na Europa, que aconteceu séculos antes da abolição brasileira. À mim, me parece muito mais uma "limpeza étnica", sob a desculpa de que se tratava de bruxaria, do que outra coisa qualquer. Afinal, onde é que foram parar os milhões de negros e negras sequestrados se não há registro de extradição e devolução dessas pessoas aos seus países de origem? Faz crer que só havia uma saída: considerar esses povos hereges e eliminá-los deliberadamente.
    Eu não tenho pesquisa, nem base científica para comprovar o que estou falando a esse respeito. Apenas, fiquei intrigada sobre esse assunto porque sempre me perguntei onde é que foram parar todos os negros que foram traficados para a Europa. E agora, eles não passam de uma pequena porcentagem, enquanto que, no Brasil, chegamos a ser pouco mais que 50% da população. Ainda que fossem em número reduzido, ter apenas 10 ou 15% de negros como população de um país europeu é, no mínimo, suspeito.
    Gostaria de explorar mais o assunto, se possível. Você tem literatura mais esclarecedora a respeito? Sou completamente leiga.

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  2. muito bom texto...ta na hora dos negros do mundo resgatarem a historia verdadeira.

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