Por que Nacionalismo Preto?

Por Black Power, Consciência Negra e Quilombismo! 


 Nacionalismo Preto (Black Nationalism) é uma filosofia política, social-econômica que surgiu no início do século XIX entre os líderes negros que entenderam a necessidade dos Africanos na América desenvolverem uma entidade e unidade nacional como a única solução para os pretos na Diáspora Africana, compreendida como América do Norte, América Latina, Caribe e qualquer outro lugar com pessoas pretas fora de África, e através disso alcançar independentemente a igualdade social, o desenvolvimento econômico e a governança das políticas dentro de suas próprias comunidades. Havia dentre os nacionalistas, aqueles que acreditavam numa total separação e criação de uma nação preta autônoma ou uma volta à África, assim como os nacionalistas que acreditavam que o povo preto já era uma nação dentro de outra nação. Malcolm X representa muito bem a junção e unidade dos diferentes pensamentos e vias do nacionalismo preto, a qual ele desenvolveu durantes seus anos de luta, e resumiu da seguinte forma.

 I- Politicamente
 “A filosofia política do Nacionalismo Preto significa apenas que o homem preto deveria controlar a política e os políticos da sua própria comunidade. Se você e eu vamos viver numa comunidade negra - e é nela que nós vamos viver, nós temos que entender a política da nossa comunidade e temos que saber o que a política deve produzir. Nós temos que saber que parte a política toma em nossas vidas. E até que nós nos tornemos politicamente maduros, nós sempre vamos ser desencaminhados, ou enganados ou manipulados para apoiar alguém que politicamente não tem o bem da nossa comunidade no coração. Assim, a filosofia política do Nacionalismo Preto significa apenas que nós temos que levar adiante um programa, um programa político de reeducação para abrir os olhos do nosso povo, tornar-nos mais conscientes politicamente, maduros politicamente...”

 II- Economicamente 
“A filosofia econômica do Nacionalismo Preto significa apenas que nós deveríamos possuir e operar e controlar a economia da nossa comunidade. Nós temos que nos tornar envolvidos em um programa de reeducação para educar nosso povo sobre a importância de saber que, quando você gasta seu dinheiro fora da comunidade em que você vive, a comunidade na qual você gasta seu dinheiro se torna cada vez mais rica; a comunidade da qual você toma seu dinheiro se torna cada vez mais pobre.” [1]

 Malcolm também explicou que o Nacionalismo Preto era uma filosofia de autoajuda, que eliminava a necessidade da discussão e divisão, pois pregava a união entre todos os pretos, para que assim fossemos capazes de conseguir nossa liberdade, e provocava: “Porque se você é preto, você deveria pensar preto, e se você é preto e você não está pensando preto nessa altura do campeonato, bem, eu sinto muito por você... E sintetizou o movimento conhecido como Back to África, o Volta à África “Fisicamente os afrodescendentes podem permanecer no Ocidente, lutando por seus direitos constitucionais, mas filosoficamente e culturalmente precisam desesperadamente voltar para África e desenvolver uma unidade ativa na estrutura do pan-africanismo.” [2]

 E por que Nacionalismo Preto? Por ele ter sido capaz de nos fazer reconstruir uma identidade e orgulho sobre quem somos, de nos organizar em unidade visando à libertação de nosso povo, por nossa autodeterminação e o fim do sistema supremacista branco. Por nos “presentear” com grandes nomes que fizeram da sua vida uma luta por nossas vidas, o Ubuntu na pratica. Por Martin Robison Delany, Kali Akuno, Rainha-Mae Audley Moore, Marcus Garvey, Assata Shakur, Stokely Carmichael, Amy Ashwood, Louis Farrakhan, Robert Athlyi Rogers, entre muitos outros nacionalistas pretos. 
 Por Black Panther Party - Partido dos Panteras Pretas, UNIA - Associação Universal do Progresso Negro, OUAA - Organização da Unidade Afro-Americana, Black Liberation Army- Exército Negro de Libertação, Nation of Islam – Nação do Islã, entre muitas outras organizações e movimentos nacionalistas pretos. E finalmente, por Black Power, Consciência Negra e Quilombismo!




Black Power foi inicialmente um slogan, gritado em uma marcha por Stokely Carmichael, hoje conhecido como Kwame Toure (em homenagem a Kwame Nkrumah e Sékou Touré – PanAfricanistas) e posteriormente, em 1 de maio de 1965 foi fundada a National Organization for Black Power- Organização Nacional para o Poder Preto, e deu inicio ao que ficou conhecido como Black Power Moviment - Movimento de Poder Preto. O movimento de Poder Preto foi em grande medida inspirado por Malcolm X e em resposta ao fracasso das tentativas de “não violência” e integração adotada pelo movimento de direitos civis, Stokely explicou o Poder Preto da seguinte maneira:

 “Para nós, o Poder Preto implica que nos libertemos das estruturas opressivas e racistas do poder branco. Isso exige que possamos controlar as nossas coletividades afro-americanas, que possamos dirigir os nossos próprios negócios, que tenhamos um poder de decisão no que concerne a politica e a economia.” [3]

Consistindo assim num apelo aos pretos da América para que se unissem e reconhecessem a sua herança e se edificassem num sentido de comunidade e que dessem inicio a definição de seus próprios objetivos e gestão de suas próprias organizações, assim Julian Bond dizia que “os pretos devem abordar todos os problemas em função de sua raça; para todos os problemas que se põem, os pretos devem pergunta-se: em que é que isso nos toca na qualidade de pretos? Somente então a decisão é possível” e isso era um pensamento de Poder Preto. Os programas políticos desenvolvidos pelo movimento foram dos mais variados, uma vez que tiveram varias organizações envolvidas, como os Panteras Pretas, o SNCC - Comitê de Coordenação Não-violento de estudantes, A Frente Unida das Mulheres Pretas, o CORE, a US entre outras. Mas, para além de movimento politico, a mensagem poderosa do Poder Preto também se transformou em movimento cultural que desenvolveu um forte orgulho racial começando a encorajar as pessoas a usar os cabelos afros (que hoje é conhecido como Black Power), vestimentas afros, e todo o orgulho da herança africana que foi visto através da proclamação “black is beautiful” – O Preto é lindo. Orgulho esse que foi visto também através da arte e da literatura, com cantores negros populares como James Brown e Aretha Franklin, esportistas como Muhammad Ali, dramaturgos e poetas como LeRoi Jones que hoje é conhecido como Amiri Baraka, e diversos outros que fizeram parte do movimento e difundiram a mensagem do Poder Preto...



Consciência Negra foi um movimento liderado e criado por Steve Biko que se colocava contra o sistema de apartheid da África do Sul, tendo influências de WEB Du Bois – EUA, Aimé Cesaire- França, ambos PanAfricanistas, assim como influencia do Poder Preto, inclusive usando o Slogan Black is Beautiful. Mas, o que seria Consciência Negra? Biko dizia:

 “A Consciência Negra é uma atitude da mente e um modo de vida, o chamado mais positivo que num longo espaço de tempo vimos brotar do mundo negro. Sua essência é a conscientização por parte do negro da necessidade de se unir a seus irmãos em torno da causa de sua opressão – a negritude de sua pele- e de trabalharem como um grupo para se libertarem dos grilhões que os prendem a uma servidão perpetua” [4]

 A Consciência Negra surge da necessidade dos pretos se unirem e resolverem seus problemas que, analisados por Biko era pelo fator racial, recuperar a cultura Africana e o orgulho por ela, desenvolver suas organizações sob suas próprias óticas, conceitos e sem intervenção alguma de pessoas brancas, pois uma verdadeira libertação só seria possível quando os pretos fossem eles próprios os agentes da mudança. Varias organizações seguiram a filosofia de Consciência Negra como a SASO –Organização dos Estudantes da África do Sul que trabalhavam pela libertação do negro, e que defendia a Consciência Negra como:

 I - A consciência negra é uma atitude da mente, um modo de vida.
II- O princípio básico da consciência negra é que o homem negro deve rejeitar todos os sistemas de valores que procuram torná-lo estrangeiro no país de seu nascimento e reduzir sua dignidade humana básica.
III- O homem negro deve construir seus próprios sistemas de valores, ver-se como auto definido e não definido por outros.
IV- O conceito de consciência negra implica a consciência dos negros do poder que eles exercem como um grupo, tanto econômica como politicamente, e, portanto, a coesão e a solidariedade do grupo são facetas importantes da consciência negra.
V- A consciência negra será sempre melhorada pela totalidade do envolvimento das pessoas oprimidas, daí a mensagem da consciência negra deve ser disseminada para alcançar todas as seções da comunidade negra. [5]

 Outras organizações que seguiram e deram continuidade ao movimento de Consciência Negra foram a BCP – Programas da Comunidade Negra e a BPC – Convenção do Povo Negro. Ambos desenvolveram vários programas e ações como exemplo o Zimele Trust Fund, fundo de assistência financeira a presos políticos e a suas famílias, Black Workers Project que apoiava os trabalhadores negros cujos sindicatos não foram reconhecidos devido ao regime racista, a Zanempilo Clinic um centro de saúde comunitário mais avançado de sua época construído sem financiamento público, o Projeto Njwaxa Leatherworks que era uma creche comunitária, o fundo educacional Ginsberg para ajudar alunos negros entre outros, sendo também grande responsáveis pelo levante de Soweto. O movimento de Consciência Negra assim como o Poder Preto, também foi manifestado pela arte, mais precisamente na literatura.



Quilombismo é um movimento politico apresentado por Abdias do Nascimento no 2º Congresso de Cultura Negra das Américas, no Panamá em 1980, mas que já havia sendo pensado e apresentado no 2º Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas (Festac), realizado em Lagos - Nigéria, em 1977. Abdias foi um dos grandes representantes do PanAfricanismo aqui onde chamamos de Cativeiro-País tumulo, conhecido como Brasil. A proposta do Quilombismo é uma proposta de resistência e recuperação de identidade, partindo da unidade do povo preto e a formação de um território antirracista, a qual Abdias chamava de Estado Nacional Quilombista, inspirado no modelo de sociedade da Republica de Palmares (Quilombo de Palmares) e outros Quilombos pois assim como Beatriz, Abdias defendia o Quilombo como uma instituição africana onde os africanos escravizados recriavam comunidades tradicionais africanas e um movimento de resistência contra a escravidão, assim o quilombismo nos traz um resgate histórico da humanidade e resistência do nosso povo, de nossa cultura, o que fica evidente quando Abdias diz:

 “Vênia é o que não precisamos pedir às classes dominantes para reconquistarmos os frutos do trabalho realizado pelos nossos ancestrais africanos no Brasil. Nem devemos aceitar ou assumir certas definições, "científicas" ou não, que pretendem situar o comunalismo africano e o ujamaaísmo como simples formas arcaicas de organização econômica e/ou social. Esta é outra arrogância de fundo eurocentrista que implicitamente nega às instituições nascidas na realidade histórica da África a capacidade intrínseca de desenvolvimento autônomo relativo. Nega a tais instituições a possibilidade de progresso e atualização, admitindo que a ocupação colonizadora do Continente Africano pelos europeus determinasse o concomitante desaparecimento dos valores, princípios e instituições africanas. Estas corporificariam formas não dinâmicas, exclusivamente quietistas e imobilizadas. Tal visão petrificada da África e de suas culturas é uma ficção puramente cerebral. O quilombismo pretende resgatar dessa definição negativista o sentido de organização socioeconômica concebido para servir à existência humana; organização que existiu na África e que os africanos escravizados trouxeram e praticaram no Brasil. A sociedade brasileira contemporânea pode se beneficiar com o projeto do quilombismo, uma alternativa nacional que se oferece em substituição ao sistema desumano do capitalismo. ”[6]

 O Quilombismo nos apresenta alguns princípios e ações e dentre os princípios é importante destacar dois pontos fundamentais, que nos aponta qual a posição politica, e baseado no que podemos construir o Quilombismo.

 I- “A revolução quilombista é fundamentalmente antirracista, anticapitalista, antilatifundiária, antiimperialista e antineocolonialista.”
 II- “O Poder quilombista quer dizer: a Raça Negra no Poder. Os descendentes de africanos somam a maioria da nossa população. Portanto, o Poder Negro será um poder democrático.” [7]


 Black Power, Consciência Negra e Quilombismo nos apontam caminhos para a luta preta autônoma, com raízes no nacionalismo preto, onde o objetivo primário é nos identificar como um grupo, como um povo e assim nos unir para que possamos enfrentar todas as mazelas impostas a nós, ressaltando o óbvio, que é a necessidade da nossa autodeterminação, afinal, faremos palmares de novo?

 Obs: Apesar de ter focado no Nacionalismo Preto executado na diáspora Africana, é imprescindível dizer que ele foi responsável por conseguir a independência e a libertação de vários países Africanos, que travaram suas lutas através do Pan-Africanismo com grandes nomes como Kwame N’Krumah, Sekou Touré, Patrick Lumumba, Julius Nyerere, Ahmed Ben Bella, Kallel Abdel Nasser.

 Referência:

 [1] Discurso o Voto ou a Bala
 [2] Livro: Autobiografia De Malcolm X – por Alex Haley
 [3] Livro: Black Power – Cadernos d. quixote n 18 
 [4] Livro: Escrevo o que eu quero – Steve Biko
 [5] Manifesto Politico da SASO
 [6] [7] Livro: O Quilombismo, 2ª ed – Abdias do Nascimento

3 comentários

  1. Vc mencionou os Panteras Negras, os Panteras negras não eram contra o Nacionalismo Negro, como Bobby já deixou claro quando xingou o Novo Partido dos panteras negras por serem panafricanos e Fred Hampton não esculhachou o panafricanismo no discurso de Nothern Illinois University em novembro de 1969. Malcolm X tbm mudou de um nacionalista negro e começou a se envolver mais com a esquerda no final da vida. Sobre os direitos civis, embora exista o racismo eles não foram muito bem sucedidos sobre o direito de voto dos negros e nos ônibus? Perdão, eu apoio em partes o Panafricanismo, mas o texto pega exemplos contra o panafricanismo e coloca como a favor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ola, tudo bem? eu acho que vc se perdeu um pouco na leitura ou faltou um pouco de atenção, mas vamos la: eu n coloquei os panteras pretas contra o nacionalismo negro, ate pq eles eram, e se colocavam como nacionalistas revolucionários (só assistir o doc sobre eles, que tem eles mesmos falando) e sobre eles serem contra os Novos panteras, o que tem a ver? sobre Malcolm X, temos que ler o que ele escreveu e não o que terceiros dizem sobre ele, malcolm nunca se afastou do nacionalismo negro, nunca. Em seu livro Manning Marable que é de esquerda faz questao de ser honesto e reafirmar que embora malcolm x tenha saído da nação do Islã ele continuava a seguir o nacionalismo negro, tanto que, tem discurso dele antes de morrer dizendo EXATAMENTE isso, tem sua organização pan africanista que ele criou antes de ser morto, ta tudo ai pra gente mesmo ler as suas palavras, todos os exemplos que eu utilizei são nacionalistas negros, nenhum deles são contra o PanAfricanismo, inclusive os Panteras, a seção a qual Assata Shakur fazia parte, junto com Afeni shakur, Sekou Odinga e diversos outros panteras, era uma sessão panafricanista.

      Qualquer duvida, estamos aqui.

      Excluir
    2. Bom, quando eu escrevi o primeiro texto eu tinha até então só lido apenas o lado leninista-maoista do partido, pelo que eu consegui ler, mas segundo essa matéria (  http://www.almapreta.com/editorias/realidade/panteras-negras-todo-poder-ao-povo ) eles me pareceram bem mais diversificados do que eu achava, já q o panafricanismo é beeeem forte principalmente em membros como Stokely Carmichael.Sobre o Novo partido dos panteras negras, eu quis dizer me baseando que eles parecem uma ala mais radical de nacionalismo negro, contra miscigenação e a favor de estados raciais. Sobre os ideais desse novo partido Bobby Seale falou:

      “Nossa plataforma e programa de 10 pontos era sobre todo poder ao povo. Começamos na comunidade afro americana. nos tornamos uma profunda organização. Mas nossos princípios — nós nunca fomos o que chamam de xenofóbicos negros nacionalistas. Não éramos separatistas negros nacionalistas. Isso não estava em jogo.
      ( https://medium.com/@chorarthur/nação-do-islã-malcolm-x-e-o-novo-partido-dos-panteras-negras-4c211fe6c974 )

      Sobre os ideais de Malcolm me parece que ele acreditava em integração racial no final da vida, isso se baseando na página 466,467 de Malcolm X-Uma vida de reinvenções e a página 322 da autobiografia do mesmo. Fred Hampton, um dos maiores membros do Black Panther Party também deu a entender que o foco não é estados raciais, mas a luta de classes, principalmente nesse discurso em Novembro de 1969 que eu já mencionei https://www.novacultura.info/single-post/2017/12/04/Hampton-E-uma-luta-de-Classes-porra. Nessas entrevistas também da a entender que tanto Malcolm quanto Fred acreditavam na integração, um através do foco na crença muçulmana, outro no foco da luta de classes https://youtu.be/C7IJ7npTYrU ,  https://youtu.be/0IVF019zC50 e
      https://youtu.be/fJSqZrVjDds

      Na verdade eu tenho que admitir que fiquei cada vez mais confuso conforme eu ia lendo, já que Bobby Seale falou contra os separatistas negros no novo partido mas os Panteras queriam tirar todos os memebros brancos do Sly and the family stone, querendo formar um grupo completamente negro, inclusive conseguiram tirar o baterista na época, se eles não eram separatistas ou nacionalistas porque fariam algo assim entende?
      Enfim, só pra deixar claro eu sou branco, então eu posso saber muito pouco, já que só recentemente comecei a pensar nesses movimentos por interesse mesmo, essas são as matérias, entrevistas e leituras para eu ter achado que a essência do partido era a luta de classes(embora com memebros mais nacionalistas como Stokely Carmichael e Assata Shakur pelo texto que vocês já compartilharam na página, texto muito bom aliás) e que Malcolm morreu como alguém acreditando na integração racial, qualquer leitura que mostre o contrário ficarei feliz em ler.

      Excluir